XÍCARAS, TIGELAS E AFINS.




por Ana Matos

bowl

Recentemente, estive na França para visitar amigos queridos. Na minha primeira manhã em Paris, sentei-me à mesa para o sagrado ritual do café da manhã que, com sorte, incluiria croissant ou, com muita sorte, pain au chocolat.
Como tenho muitíssima sorte (e amigos espetaculares), havia os dois!
Da cozinha, vinha o cheiro inconfundível do café que, logo em seguida, minha amiga trouxe para a mesa.
‘Quer café?’
‘Sim, obrigada.’
Ela, então, despejou uma dose generosa em uma tigela de cereais(!), imediatamente depositada nas minhas mãos incrédulas. Eu não tinha ideia do que fazer. Talvez os franceses comessem cereais com café?!
Percebendo minha situação, ela gentilmente me ofereceu uma xícara.
Aliviada, aceitei. Ela, então, completou a tigela com leite, a envolveu carinhosamente com as mãos e a levou à boca com tanto prazer (e tantas vezes!) que me fez pensar se eu tinha realmente feito uma boa escolha. A partir daquele dia, durante toda minha estadia na França, bebi meu café au lait matutino na tigela. Afinal, esse é um privilégio de quem é recebido em casa, uma vez que nos cafés e restaurantes se usa a nossa velha conhecida xícara.
Alguns dias depois do vexame da tigela, estava com outros amigos no centro histórico de Vannes e resolvemos almoçar em uma creperia.
Seguindo a tradição local, pedimos galettes que, segundo me explicaram à mesa, são feitas de trigo sarraceno e têm recheio salgado, enquanto as crepes são feitas de trigo comum e têm recheio doce.
Para beber, pedimos sidra, que na Bretanha é bebida séria, e não a gasosa barata e de gosto discutível encontrada no Brasil. Mas qual não foi minha surpresa quando a sidra foi servida em… xícaras!
Peraí, pensei. Se os franceses bebem café com leite na tigela e sidra na xícara, o que beberão na taça?
Vinho, é claro!
E água?! Quando criança, amava as taças de água, maiores de todas. Ainda amo, mas na Itália, onde vivo, a água é servida em tumblers, copos sem haste. Não sei se isso acontece somente aqui, ou se é uma decisão internacional influenciada pelos sommeliers, que não querem conferir à água a mesma importância do vinho – conforme me explicaram.
Eu acho bobagem. Afinal, a água é provavelmente muito mais importante do que o vinho. Podemos viver sem vinho (pelo menos a maior parte de nós), mas não sem água.
A verdade, porém, é que não comemos e bebemos por uma simples questão de sobrevivência. A beleza e a sofisticação dos utensílios de comer, bem como seus usos surpreendentes, são prova disso. Uma bela xícara de café pode mudar seu dia. Já uma bela tigela de café pode derrubar seus preconceitos. Afinal, foi para facilitar a imersão da baguette ‘dormida’ no cafè au lait que os franceses instituíram seu uso no desjejum.

 

ANA MATOS

Ana Matos detesta que perguntem sua profissão porque não sabe como se definir. Em 2011, largou tudo para estudar gastronomia em uma escola slow food na Itália. Atualmente, dedica-se a conhecer e difundir o Salento, região do sul da Itália onde vive.

http://salentoallseasons.wordpress.com/

 

 

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