VENDO UM VÍDEO

– por Tatiana Messer-Rybalowski 

Vendo um vídeo em que Vivienne Westwood era entrevistada, percebi vários assuntos interessantes que foram abordados: sua crítica sobre o sistema atual de consumo (“Buy less, choose well, make it last”), seu alerta sobre o preço irreal dos produtos como vestuário e alimentação (para baixo) e também sua opinião sobre o ensino atual de moda no Reino Unido.

Vivienne Westwood, já na estrada há muito tempo, foi juntamente com seu marido Malcolm McLaren, uma das responsáveis por dar um contorno à estética punk rock na década de 70. Durante toda sua trajetória, nunca perdeu a sua veia contestadora e rebelde, combinando inconformidade com senso de tradição. Até hoje é reconhecidamente uma ativista política e suas coleções sempre surpreendem.
A surpresa, afinal, é uma propriedade indispensável que deve estar presente no trabalho de um criador.

Malcolm McLaren & Vivienne Westwood, 1976

Malcolm McLaren & Vivienne Westwood, 1976

Vivienne Westwood e seu marido Andreas Kronthaler sendo aplaudidos no final do desfile da coleção PAP out_inv 2014-2015 apresentada em Paris. Photo_AP.jpg

Vivienne Westwood e seu marido Andreas Kronthaler sendo aplaudidos no final do desfile da coleção prêt-à-porter outono-inverno 2014-2015 apresentada em Paris. Photo: AP

 

Os três assuntos do vídeo despertaram meu interesse, mas escolhi me ater particularmente no ensino de moda, quando Westwood tece uma crítica ao sistema atual das Escolas de Arte e Moda no Reino Unido.

O assunto meio que desceu de paraquedas, já que surgiu da pergunta inesperada de um espectador no Old Town Hall em Chelsea que questionou sobre a necessidade de se estudar moda para ser um designer de moda.

A resposta (bem interessante) apontou para o fato de que ”o problema é que eu não sei o que mais poderia se fazer para estudar moda”. Segundo Westwood, o sistema de se trabalhar como aprendiz (*) pareceria uma boa saída, mas parece não existir mais atualmente.

Mas o que parece que mais incomoda é a extrema facilitação do ingresso de alunos que vêm de todas as partes do mundo para estudar Moda no Reino Unido: todos querem ser designers de moda e a falta de talento parece não inibir as intenções. As escolas de moda ensinam que você pode fazer qualquer coisa e você pode ser o que você quiser – e isto, segunda ela, está errado.

There are lot of people who should not be there. They are there just because they want to be [fashion designers]. I am afraid you have to have a hand, you have to have a talent.”

O que é ensinado e por ela criticado é um modelo de ensino errático, em que se invalida o passado. Tudo já estaria dentro de você. Mas de onde uma pessoa de vinte e poucos anos tira as referências? De onde viriam os subsídios para a criação?

Westwood, de forma enfática, aponta para o fato de que isto vem da cultura, da possibilidade de se colocar no lugar de quem já viveu antes de você. De conhecer o passado.

Sem dúvida, a polêmica não poderia deixar de estar ao lado de Westwood e entendo que atividades e profissões entram e saem de moda. Algumas dão glamour, outras dinheiro, e com alguma sorte, as duas coisas. Como professora de moda, também acompanhei os diferentes momentos da moda no ensino e na prática. Mas uma coisa sem dúvida é fundamental em bons trabalhos: muita pesquisa, conhecimento de matérias primas e da construção do vestuário.

Talento só, também não basta.

Aniversario de 70 anos de Vivienne Westwood

Aniversario de 70 anos de Vivienne Westwood

(*) acredito que ela se referiu ao modelo de aprendiz das guildas ou corporações de ofício medievais que ainda estão presentes na forma de se produzir Alta Costura.

Vídeo : http://www.theguardian.com/membership/video/2014/oct/29/vivienne-westwood-capitalism-clothing-video

Sugestão de video: http://www.marieclaire.co.uk/blogs/544198/this-is-why-vivienne-westwood-is-the-most-inspiring-woman-in-fashion.html

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Tatiana Messer Rybalowski

Designer de moda, arquiteta e professora de Design na PUC-Rio

http://modafashionmode.blogspot.com

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