TORNAR VISÍVEL




por Sonia Gil

Tenho alma colorista.
Sou apaixonada por Paul Klee.
Dizia ele: “A cor me possui. Não tenho que ir em busca dela. Ela vai me possuir sempre. Eu sou um pintor”.
Acho isso lindo.

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Em abril de 1914, há exatos 100 anos, Paul Klee empreendeu uma viagem de estudo de duas semanas à Tunísia. Essa viagem teve um efeito mágico sobre ele, que a descreveu como um novo encontro com a luz e a cor. A luz límpida do norte da África despertou seu senso para as cores.

Tunisia

Em Dezembro passado, visitei a exposição Paul Klee: Making Visible, na Tate Modern em Londres, que encerrou agora em março. Assim como a viagem de Klee à Tunísia, a exposição teve em mim um efeito mágico.
Tive uma epifania!
Procuro na Wikipedia o significado dessa palavra: “epifania é uma súbita sensação de realização da essência de algo”.
Exato. Tive um encontro com a essência da cor.

House Interior 1919

House Interior 1919

Uma exposição apaixonante….épica. 130 trabalhos distribuídos em 17 salas.
Exposição daquelas que requerem um tempo de degustação. Uma viagem pela espiral de produção de Klee, onde o vemos inventar novas formas de trabalho e ecoar suas grandes habilidades musicais em termos de composição e de escala. Seus desenhos intrincados e a aquarela delicada pedem um olhar com maior atenção. Essa experiência tem sido muitas vezes comparada à leitura de um livro ou uma partitura musical.

O curador Matthew Gale optou por pendurar os trabalhos na ordem em que Klee os desenhou ou pintou. De 1911 em diante, ele inscreveu dois números em cada um de seus trabalhos – o primeiro indicando o ano em que ele o fez e o segundo o seu lugar no número de obras que ele tinha feito nesse ano.
Observar os trabalhos em ordem cronológica permite perceber um desenvolvimento artístico que aconteceu mais através de pequenos ajustes, do que por mudanças radicais.

In the Desert 1914

In the Desert 1914

Em 1930 os nacional-socialistas atacaram a pluralidade da cultura alemã de maneira devastadora. Como um modernista, Paul Klee foi demitido de seu cargo de professor na Academia de Dusseldorf. Suas obras foram removidas de galerias públicas, os colecionadores foram perseguidos e seu marchand forçado a sair do negócio por ser modernista e judeu. Klee se refugiou em Berna no final de 1933.

Two Emphasized layers 1932

Two Emphasized layers 1932

A gravidade da situação política, o exílio e seu sofrimento pessoal, em função de uma séria doença degenarativa influenciaram sua arte, que passou a ter um tom mais sombrio.
Mas, apesar da doença, ele não parou de produzir, pelo contrário, em 1939, seu último ano de vida, ele criou 1.253 obras!

A última sala da exposição apresenta trabalhos com temas como o medo e a luta contra a doença ao lado de outros mais solares, obras raramente  vistas fora dos museus que as abrigam, como Rich Harbour (1938) do the Kunstmuseum Basel e  Park near Lu (1938) do Paul Klee Centre em Bern.

Rich harbour 1938

última sala

A compreensão da cor foi talvez a sua maior força.
Klee disse a seu filho que iria tentar partir em uma explosão de cores…. na minha epifania percebi que ele conseguiu.
Paul Klee se transformou em cor.

 

 

SONIASonia Gil, www.soniagil.com.br
Arquiteta e artista plástica.
Cidades são sua inspiração. Cria com sua paleta digital, cidades inventadas, desenhadas sobre cidades reais, fontes inesgotáveis de força e beleza.

É co-fundadora do coletivo internacional de arte Urban Dialogues

 




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