SOBRE SUSTENTABILIDADE




– sustentabilidade

por Tatiana Rybalowski

Lute_cartunista

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Sustentabilidade e Moda são dois assuntos que podem parecer ter diálogos difíceis, assim como dois bicudos que não se beijam… No entanto, há pessoas – físicas e jurídicas – pensando a Sustentabilidade na Moda. É claro que os movimentos mais consistentes não estão aqui no Brasil, mas em países com um mercado e cultura mais estruturados.

Mas afinal, como um produto que carrega em si a obsolescência planejada pode tentar ser sustentável? Quando falam para mim sobre a conscientização do consumidor, eu fico um tanto ressabiada, pois custo a acreditar que a maioria das pessoas vai mudar seus hábitos de consumo e comportamento em prol da melhoria do meio ambiente. São questões que parecem muito longe do nosso dia a dia: desgelo do Ártico, intoxicação por pesticidas na Indonésia, miséria e exploração na África, prédio que abriga confecções em Bangladesh ruindo e matando milhares de pessoas… Isso comove enquanto está na mídia, mas depois a memória se encarrega de diluir as imagens e transformá-las em qualquer outra coisa mais palatável.

Não que não haja pessoas conscientes com muita disposição para mudar o mundo. É só lembrar como os sujeitos que se envolviam nos movimentos ecológicos surgidos por aqui nos anos 90 angariavam alcunhas de ecochatos. Agrotóxicos, pesticidas e afins eram assunto de gente que não tinha muito o que fazer. Hoje as prateleiras dos supermercados têm seções dirigidas àqueles que se preocupam com sua saúde, entendendo os benefícios dos alimentos orgânicos e biodinâmicos.

As leis para separação de resíduos trazem enormes dores de cabeça aos síndicos, pois o pensamento coletivo não é o forte do brasileiro. Tento acreditar que essas práticas irão ingressar no cotidiano das pessoas que, em algum tempo, acharão normal a separação dos resíduos produzidos por elas.

Isto tudo para desembarcar na Moda Sustentável, que nada mais é do que a prática de novas posturas diante do cenário que se apresenta diante de nós. É uma busca de dar conta de problemas à nossa volta. Um exemplo emblemático é o da marca californiana Patagonia, especializada em roupas esportivas/outdoor. Em 1988, quando abriu uma loja em Boston, em poucas semanas, seus funcionários passaram a ter fortes dores de cabeça e, quando um engenheiro foi chamado, viu que o problema era relacionado ao sistema de ventilação que reciclava o mesmo ar já consumido. Mas o que havia de tão ruim naquele ar? Formaldeído, que era utilizado no beneficiamento das peças de algodão que eram estocadas no porão. Após estudos e a constatação de que o cultivo do algodão tradicional era extremamente nocivo à terra e àqueles que o manejavam, a empresa passou a utilizar somente algodão orgânico. Isto ocorreu em 1996.

Pode parecer um tempo enorme para uma mudança, mas estratégias empresariais não são imediatas, ainda mais quando envolvem uma enorme cadeia de fornecedores. Mas onde quero chegar? Simplesmente no ponto de compreender que mudanças de hábitos e de práticas, pessoais e empresariais, não acontecem da noite para o dia. A luz da consciência demora a chegar, para uns mais, para outros menos.

Não existem produtos ou empresas totalmente sustentáveis. Não é possível fazer “tudo certo”, até porque há uma enorme dependência de outros fatores e outros atores. Na Moda, tal como em outras áreas e setores, temos que buscar cada vez mais a consciência, mesmo que só de alguns. Tal como está no site da marca Patagônia:

“Nós não podemos colocar Patagônia como o modelo de uma empresa responsável. Nós não fazemos tudo o que uma empresa responsável pode fazer, nem qualquer outra pessoa que conhecemos. Mas podemos dizer como chegamos a perceber as nossas responsabilidades ambientais e sociais, e, em seguida, como começamos a agir para dar conta delas. Como em outras coisas na vida humana, isto começou com um passo que levou a outro.”

 

foto blog_5 tatianaTatiana Messer Rybalowski
Designer de moda, arquiteta e professora de Design na PUC-Riohttp://modafashionmode.blogspot.com
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