SOBRE INSÔNIA, TERRITÓRIOS E MUROS

por – Sonia Gil

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Três e meia da manhã e estou insone. Minha filha está voando a caminho do Rio. Tem dezenove anos e não a vejo há sete meses.
Estou ansiosa.
Ando pela casa e decido escrever esse artigo, que deveria ser sobre arte, mas na minha cabeça as idéias estão soltas e desorganizadas. Madrugadas são perfeitas para os corações inquietos.
Tenho acompanhado os acontecimentos do país com um misto de surpresa, encantamento e apreensão. Leio colunistas e opiniões postadas nas redes, nos blogs, acompanho os vídeos da Mídia Ninja e alguns fóruns de discussão.
Corto e colo trechos de textos, buscando fazer sentido dos acontecimentos recentes.
Leio sobre os paradigmas que estão sendo quebrados, sobre o deslocamento do lugar do poder, na nova sociedade fractal e quântica.
Fico pensando nessa nova forma de vida em sociedade, desterritorializada e desespacializada e no espaço híbrido que foi criado, entre as redes e as ruas, consequência da mobilização cidadã a partir das redes sociais.
Essas mesmas redes sociais que até ontem eram usadas para postar fotos adolescentes e mensagens curtas…de repente estão cheias de textos densos e muito interessantes, reflexões e discussões.
De repente?
Não, não foi de repente, foi um processo, assim como o a queda do muro de Berlin, acontece é que o que vinha sendo construído ou destruído aos poucos, se tornou visível “de repente”.
Sou arquiteta e artista, trabalho com colagens digitais, crio novas cartografias, mapas de cidades inventadas e grafites virtuais. Fotografo, pinto, capturo imagens e manchas e misturo tudo, criando novas cenas urbanas e buscando novos sentidos. Meu trabalho se situa exatamente nesse espaço híbrido, entre as redes e as ruas, o espaço ocupado pela nova política que os jovens estão inventando.
Território geográfico. Território da cidadania. Território do medo.
A Wikipédia diz que existem vários sentidos figurados para a palavra território, mas todos compartilham da ideia de apropriação de uma parcela geográfica por um indivíduo ou uma coletividade.
O que seria essa sociedade desterritorializada e desespacializada?
Penso na cidade do Rio de Janeiro, a famosa cidade partida.
Penso nos territórios da não cidadania e na aproximação entre classes a partir da truculência da polícia em ações que se espalharam pelos bairros nobres da cidade do Rio de Janeiro.

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Cidade partida, tapumes, grades e muros. No texto “A vida privada dos tapumes”, postado no Blog da Cosac Naify, Miguel del Castillo fala sobre os tapumes nas cidades, essas estruturas temporárias, que vem sendo utilizadas como proteção ao vandalismo. Ele qualifica os tapumes como muros e destaca um lindo texto de Regina Modesto Guimarães:
“Quando é que passou pela nossa cabeça que muro é uma coisa que divide? Muro era uma coisa para a gente escalar. O estupendo da infância é essa capacidade de descobrimento.”
Fiquei pensando nisto tudo, na cidade partida, nos territórios e nos muros, nas crianças, nos jovens e nos artistas, nos sonhadores e inquietos, na necessidade de escalar esses muros, apesar dos medos, para vislumbrar novos horizontes e fazer novas descobertas.

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Sonia Gil, www.soniagil.com.br

Arquiteta e artista plástica.
Cidades são sua inspiração. Cria com sua paleta digital, cidades inventadas, desenhadas sobre cidades reais, fontes inesgotáveis de força e beleza.
É co-fundadora do coletivo internacional de arte Urban Dialogues

Sonia Gil
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www.soniagil.com.br

Sonia Gil – Artísta Plástica

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