QUEBRANDO PADRÕES




por Sonia Gil

Semana passada me deparei com um post no Facebook que me encantou, texto e imagem. Um trabalho de Faig Ahmed, um tapete, destes persas maravilhosos vermelhos, com aquela padronagem tradicional, que a partir da sua meta se dissolvia em cores que escorrendo pela parede e formando uma poça no chão, com um novo desenho de cores e formas.

O texto dizia: Nada de significativo jamais acontece antes que um padrão seja quebrado.

Adorei.

 Trabalho de Faig Ahmeg

Trabalho de Faig Ahmeg

O uso de tapetes com mudança de padrão me remeteu a uma temática já vista. Fiquei cismada e fui buscar meu caderninho de anotações, desses caderninhos de bolso tipo Moleskine, super úteis para fazer nossas anotações de viagem. Procurei e encontrei! O artista era o mesmo que tinha me encantado na exposição que vi em dezembro no V&A, o Victoria & Albert Museum de Londres, a meca de arte e design.

Jameel Prize

A mostra do V&A era uma exibição do Jameel Prize, uma premiação para arte contemporânea e design inspirados na tradição Islâmica. O objetivo é explorar a relação entre a tradição e a contemporaneidade na arte e no design, como parte de um debate maior sobre a cultura Islâmica atual.

Achei super interessante e tomei nota em meu caderninho, dos nomes e trabalhos que mais me interessaram.

O artista em questão, Faig Ahmeg nasceu em Baku, no Azerbaijão. Seus tapetes, são baseados na antiga tradição de tecelagem local. São feitos à mão e na sua maior parte seguem um desenho convencional. Porém, em cada uma das peças, Ahmed reconfigura parte da padronagem. No trabalho Hollow de 2011, um canto do tapete colapsa, enquanto em Tradition in Pixels de 2011, uma parte se desintegra em pixels. Ao criar essa formas disruptivas, Ahmed nos mostra como idéias que foram formadas através dos anos estão sendo transformandas de momento para o outro. Provocativo.

tapete

Formado em escultura, Ahmed desenvolve um estudo dos tradicionais tapetes do Azerbaijão , desconstrói a sua estrutura convencional e rearruma de maneira ramdômica os componentes, combinando esses fragmentos com formas esculturais contemporâneas. Segundo ele , é a mudança de pontos de vista que muda o mundo.

Conversation 2011

Conversation 2011

A vencedora do prêmio foi Dice Kayek, uma estilista que desenvolveu uma coleção de vestimentas-esculturas que evocam a arquitetura e o legado artístico de Istambul. A tradução das idéias arquitetônicas para a moda mostra que a tradição islâmica pode ser transferida de uma arte para a outra.

Trabalhos de Dice Kayek

Trabalhos de Dice Kayek

Trabalhos de Dice Kayek

Trabalhos de Dice Kayek

Outros artistas me encantaram nessa mostra, como Nasser Al Salem, nascido em Mecca, que usa a escrita árabe em várias mídias, brincando com a escala das letras e o significado das palavras. Ou ainda Waqas Khan, do Paquistão, treinado em pintuta em miniatura, mas que usa essa técnica para criar desenhos em escala grande. Ele diz que seu processo de trabalho é quase arquitetural, como uma construção lenta, tijolo por tijolo. Os tijolos são pontos, marcas e linhas, misturados em composições com precisão e delicadeza. Segundo ele, cada ponto é como uma palavra e a prática reflete aspectos do Sufismo, movimento místico Islamita. Ele trabalha prendendo a respiração enquanto desenha e apenas expirando quando a tinta já está no papel. Um processo de trabalho que é um ritual.

Trabalho de Nasse-Al-Salem

Trabalho de Nasse-Al-Salem

Trabalho de Nasse-Al-Salem

Trabalho de Nasse-Al-Salem

Fiquei pensando na importância das rupturas e quebras de padrão, para que as mudanças significativas aconteçam. Também fiquei pensando nas diferenças entre a cultura ocidental e a cultura oriental, na riqueza cultural que vai se perdendo com a disseminação de um padrão dominante e em como podemos aprender mais a partir de outros olhares e pontos de vista. Inspirador.

Trabalho de Waqas Khan

Trabalho de Waqas Khan

Trabalho de Waqas Khan

SONIASonia Gil,

www.soniagil.com.br

Arquiteta e artista plástica.

 

Cidades são sua inspiração. Cria com sua paleta digital, cidades inventadas, desenhadas sobre cidades reais, fontes inesgotáveis de força e beleza. É co-fundadora do coletivo internacional de arte rban Dialogues




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