PRÓXIMA PARADA : WONDERLAND

Se fosse escolher um país para estudar gastronomia, qual seria seu destino?

As opções mais óbvias seriam a França ou a Itália. Eu não tentei ser original e escolhi a Itália. Não posso jurar, mas acho que tudo começou com o filme ‘Sob o Sol da Toscana’, que não tem absolutamente nada a ver com o livro, mas ainda assim faz a boca encher d’água.

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http://www.youtube.com/watch?v=SwfynayJd_Q

Certo que não faltam referência cinematográficas, literárias e gastronômicas a uma Itália bucólica, onde a vida transcorre mais lenta e verdadeiramente, permitindo descobertas e (re)encontros. Tudo, claro, preferivelmente em volta de uma mesa grande e farta, coberta pela indefectível toalha quadriculada, e cheia de gente barulhenta e alegre. Um dos últimos grandes sucessos envolvendo essa fórmula foi ‘Comer, Rezar, Amar’.

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http://www.youtube.com/watch?v=Cm7E81pVsiM

Obviamente, os clichês abundam, às vezes cansam, mas o chamado fica.

Chegando aqui, a questão é compatibilizar expectativa (para não dizer fantasia) e realidade. No inicio, não foi difícil. Parecia que eu estava sonhando acordada. As seis semanas de Master in Italian Cooking, em Jesi, cidade de muros medievais na região de Marche, centro-leste da Itália, estão entre as melhores da minha vida. De dia, me dedicava a descobrir os segredos das diversas cozinhas regionais italianas, sob a orientação de chefs vindos de quase todo o país. À noite, me sentava em volta da famosa mesa italiana, na companhia de meus colegas de curso e eventuais hóspedes do Ostello Villa Borgognoni, onde estávamos alojados. Não sei com que apetite, mas jantávamos as ‘sobras’ dos pratos preparados na escola, acompanhados de vinhos que comprávamos na enoteca da cidade.

Mas como tudo que é bom dura pouco, as seis semanas chegaram ao fim e eu tive que partir para o estágio. Não foi longa a viagem de carro até Casteldimezzo, lugarejo com 14 habitantes e três restaurantes, entre os quais o La Canonica, onde eu passaria a trabalhar e morar. Por outro lado, a distância entre o mundo da escola e o backstage do restaurante se provou demasiado grande. Apesar do enorme aprendizado, ou mesmo por causa dele, concluí que ter amor pela cozinha não significa ter talento para pilotar o forno, o fogão e as panelas de um restaurante. Depois de um mês de estágio, decidi ir embora. Deixei o quarto onde vivia no andar superior do restaurante com o coração partido, a cabeça à mil e o medo de enfrentar a falência econômica e pessoal.

Hoje, dois anos depois, continuo na Itália, mas me movi em direção ao sul, onde o sol brilha em média 300 dias ao ano. Meus sonhos gastronômicos ficaram restritos a cozinha da minha casa, que é abastecida de um quase tudo por pequenos produtores locais. Azeite, trigo e outros cereais, legumes, verduras, frutas, ovos e por aí vai. Conheço pelo nome o açougueiro, a fruttivendola, o queijeiro, e até alguns vinicultores. Diria que valeu a pena sonhar. E sonho ainda. Às vezes, porém, prefiro lembrar. Fecho os olhos e me vejo no uniforme de cozinha, sinto calor dos fornos acesos e os cheiros que se sobrepunham de maneira única nas tardes que antecediam as noites de casa cheia. Sinto nostalgia e tento imaginar onde estaria agora se não tivesse desistido.

Alguns links para maiores informações (em italiano e inglês) sobre os lugares mencionados:

http://www.turismojesi.it/Home.aspx?lang=en

http://www.ristorantelacanonica.it/

http://www.parks.it/parco.monte.san.bartolo/Epun.php

 

ANA MATOSAna Matos detesta que perguntem sua profissão porque não sabe como se definir. Em 2011, largou tudo para estudar gastronomia em uma escola slow food na Itália. Atualmente, dedica-se a conhecer e difundir o Salento, região do sul da Itália onde vive.

http://salentoallseasons.wordpress.com/

 

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