POR UMA ARQUITETURA POSSÍVEL




Imagine a seguinte situação: você vai ao médico e inicia a consulta assim:

“ Dr., eu assisto ao seriado  House, comprei toda a temporada de E.R. e adoro aquelas revistas sobre saúde e bem estar. Sei que estou com um problema X de saúde no cérebro, mas só queria uma ajudinha sua para fazer a cirurgia. Conheço vários auxiliares de enfermagem e inclusive um cara muito bom, que apesar de nunca ter terminado a faculdade de medicina, sabe tudo e vai me operar. Ele tem muita experiência e já realizou várias cirurgias!  Me disseram que ele é muito bom! Só preciso realmente de uma ajudinha sua, umas orientações de como fazer e que  o Sr. me dê as receitas dos remédios para dor e antibiótico. Só isso! Eu até já sei qual é o remédio!”
Pareceria um absurdo, não é?
Essa mesma estória da consulta poderia se aplicar também a um dentista ou advogado.
Assim como nós, os arquitetos, os médicos e advogados são profissionais liberais, com suas atribuições regulamentadas em leis.
Pois é, mas é esse tipo de estória que escuto e mais escutei ao longo da minha vida profissional… Por que será?
Nasci e fui criada em uma família ligada à construção civil. Meu pai e meu tio são arquitetos e dois de meus irmãos mais velhos são engenheiros.
Quando era criança (desculpem, adoro falar da minha vida) meu pai prestava serviços na construção do prédio do antigo BNH, no Centro do Rio. Eu tinha uns 7, 8 anos e ele me levava com ele aos sábados para visitar a obra, já em fase de acabamentos. Depois ele ia comigo à Rua da Alfândega, onde comprávamos doces árabes e esfihas para levarmos para o almoço em casa.
E ele ainda complementava o passeio me dando uma caixa de lápis de cor nova e um pacote de papel ofício.
Ou seja para mim, ficou algo assim:
Arquitetura:
momentos chatos (trabalho) + comida gostosa (prazer) = presente preferido (recompensa).
Perfeito, não poderia haver profissão melhor! E talvez explique os posts gulosos que publico…
Mas o que sempre vi em casa foi muito trabalho, sair cedo, chegar tarde, trabalhar aos sábados. Nada relacionado ao glamour que vejo ser associado ao arquiteto.
Pois bem, retornando…
Por que as pessoas nos procuram assim e têm tanta dificuldade de entender que ideias custam anos de formação e que uma consulta tem valor?
Seguindo o paralelo do médico: se você for a uma consulta, ele te avaliar e disser que está ótimo, com a saúde perfeita. Você deixa de pagar a consulta? Afinal, ele nem fez nada…
Ou então você vai a um advogado e conta o seu caso complicado. Ele responde que realmente não há o que fazer, porque de acordo com a lei, que é ele que conhece e não você, não se pode fazer nada.
Você estaria desobrigado de pagar uma consulta?
Nem todo o arquiteto é Niemeyer, assim como nem todo o neurocirurgião é Niemeyer. Até quem fabrica biquínis de alta qualidade nem sempre é Niemeyer (essa as meninas entenderam).
E não adianta eu mudar meu nome!
A questão é que também a maioria das pessoas não precisa projetar uma cidade ou de uma delicadíssima cirurgia no cérebro.
Existem profissionais muito bons e competentes, adequados a executar o tipo de trabalho que for necessário ao seu caso na área de arquitetura.
E por ser um trabalho, mesmo que uma consulta, deve ser remunerado.
Os advogados e médicos têm órgãos de classe muito competentes em combater o exercício ilegal da profissão.
Já o nosso órgão anterior, e o CREA que me perdoe, não se preocupava muito em trabalhar ativamente. Engenheiros e agrônomos também se ressentem com isso.
O CREA cria regras mas não fiscaliza nem pune o não cumprimento. Age assim por não ter gente suficiente e coisas tais, mas com todo o respeito e data vênia, também por falta de vontade.
Agora temos o CAU. Um conselho só para a Arquitetura.
Um de seus principais atos recentes foi mudar o Dia do Arquiteto, de forma até um pouco arbitrária, penso eu, para homenagear Niemeyer.
Nada contra! Ele merece!
Mas acho que esta na hora de valorizarmos uma arquitetura possível, de profissionais competentes que cobram e recebem o valor adequado por seu trabalho, experiência e conceituação dentro do mercado.
Não existe só o super-arquiteto e o cara que dá palpite, sem que haja nada entre estes dois extremos percebidos pelas pessoas em geral.
O novo conselho deveria ser mais prático (não sei se será) e se preocupar efetivamente em regulamentar melhor e defender os interesses de todos os arquitetos e não apenas de uma espécie de elite, fantasiosamente criada no imaginário do público.
E é isso que aqui no blog, de forma bem pequenininha procuro demonstrar.
O arquiteto é possível, é próximo de você e pode te ajudar com seu trabalho e experiência. Ele é necessário.
Mas não se engane, embora pareça prazeroso, é trabalho!
Da mesma forma que o seu, seja ele qual for.
E o custo  pode ser bem menor do que o retrabalho com besteiras realizadas por pessoas sem a capacitação necessária.
E arquitetos, vamos fazer valer a pena!
Bjsbjs, Claudia




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