O QUE ESTARIA PICASSO FAZENDO HOJE?




Picasso

– por Sonia Gil

Essa semana assisti pela internet a um documentário sobre a reconstituição do ballet A Sagração da Primavera.
O famoso ballet, que está comemorando cem anos, estreou em 1913 causando uma violenta reação do público e gerando um grande tumulto que acabou em motim. As complexas estruturas rítmicas da música de Stravinsky e os passos de dança inovadores da coreografia de Nijinsky revolucionaram não apenas a dança, mas toda a História da arte. Após uma curtíssima temporada, o balé não foi realizado novamente e sua coreografia desapareceu até ser reconstruída na década de 1980.

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A coreógrafa Millicent Hodson trabalhou na reconstituição do ballet, junto com o historiador e designer Kenneth Archer. Seu depoimento é emocionante, ela conta como a estréia do ballet foi uma experiência disruptiva: “Ao final de meia hora de performance, a Belle Epoque havia acabado, o mundo e as regras haviam mudado”. Para o público, a idéia de que um novo mundo estava nascendo era ameaçadora. Para Millicent, Nijinsky é o equivalente de Picasso.

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O mundo não seria mais o mesmo, vieram duas guerras e sucessivos movimentos de arte que ao longo do século 20 transformaram a vanguarda em status quo.
Estive visitando este final de semana a mostra Elles: Mulheres Artistas na Coleção do Centro Georges Pompidou no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro.

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Segundo a revista Bravo, que publicou uma matéria sobre a exposição, quando exibida na capital francesa, em 2010, a coletiva foi acompanhada de debates e entrevistas que discutiam o recorte proposto pelo museu parisiense. “Há sentido em segregar o trabalho das artistas? Existe um componente feminista na mostra?”
Na verdade essa não foi a questão que mais despertou minha atenção. O panorama traçado é interessante. A mostra traz ao país 120 trabalhos de 65 expoentes, datados de 1907 a 2010. Estão reunidas obras de criadoras pioneiras e contemporâneas. Porém, a medida que a mostra se desdobra pelos espaços de arte contemporânea, percebo em mim um certo cansaço dessa “vanguarda”.
O crítico de arte Fabio Cypriano publicou no jornal A Folha de S. Paulo uma análise da 55ª Bienal de Veneza. A mostra, com curadoria de Massimiliano Gioni, inclui uma vasta produção criativa, boa parte feita por não artistas ou por aqueles à margem do mercado. Da mesma forma, a Bienal de São Paulo teve como eixo central o interno de uma clínica psiquiátrica, Arthur Bispo do Rosário. Em Veneza, Gioni apresenta ainda a vertente espiritualizada de uma produção baseada em práticas inusitadas, como a partir de um transe. É o que fazia Hilma af Klint (1862-1944) ao pintar como médium de espíritos. Tanto a mostra italiana como a brasileira apontam para uma leitura da arte expansiva, ou seja, uma produção originalmente não voltada a museus e galerias.
Essas escolhas me parecem muito significativas e parecem ter ressonância com essa minha sensação de cansaço da produção de arte contemporânea. Parece que tudo já foi feito e experimentado. E é aí que sempre penso em Picasso, o incrível gênio criador do século 20. Se fosse transportado para a época atual, com acesso a todas as novas ferramentas da Era do Conhecimento, o que estaria fazendo Picasso?
Sonia Gil, www.soniagil.com.br
Arquiteta e artista plástica.
Cidades são sua inspiração. Cria com sua paleta digital, cidades inventadas, desenhadas sobre cidades reais, fontes inesgotáveis de força e beleza.
É co-fundadora do coletivo internacional de arte Urban Dialogues

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www.soniagil.com.br

Sonia Gil – Artísta Plástica

 

 

 

 

 

 




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