O ESPELHO

Na casa da minha primeira infância, não me lembro de ter um espelho que pudesse me ver de corpo inteiro.
Havia um pequeno, no armarinho do banheiro, talvez algum no quarto da minha mãe, não lembro, e só.
Minhas lembranças de autoimagem são do espelho do armarinho do banheiro.
Com sarampo, usando a maquiagem da minha mãe escondida, fazendo caras e bocas.
Para me olhar nele, para conseguir ver parte de mim no espelhinho, precisava subir no vaso sanitário, à distância, ou pegar o banquinho da cozinha, disfarçadamente.
Fantasias de Carnaval, só via inteiramente na casa da minha avó, em um espelho grande, de cristal, resquício do armário de casamento dela: a porta central.
Aos 9 anos, nos mudamos para um apartamento enorme , duplex, na Tijuca. E o único espelho de corpo inteiro era esse da minha avó, que foi parar no quarto de costura da minha mãe.
No meu quarto havia uma penteadeira, em que me via em partes, setores.
O rosto, o tronco… Nada de pernas e sapatos para sair por aí.
Aos 17 nos mudamos novamente, agora para um apartamento bacana, na Barra da Tijuca, de frente para o mar.
Dessa vez exigi um espelho no meu quarto, enfim!
Que foi colocado, após certa resistência, na parte interna da porta do armário, atrás da porta do quarto.
Só podia me ver de portas fechadas.
Quando me casei, sempre quis muitos espelhos pela casa. Fui, enfim, imitida na posse do espelho da minha avó. Como mulher casada, levei-o comigo para a nova vida. Nem eu entendia bem tamanho apreço a essa peça antiga.
Quando voltei para a casa dos meus pais, depois de percalços da vida, trouxe um espelho e pendurei no meu quarto. Minha mãe, até hoje, não tem. O da minha avó foi para a casa da minha filha, com destaque.

Quanto de castração, de eliminação da autoimagem, de negação da vaidade, de negação de aspectos femininos esta embutido nisso?
Pode parecer bobagem, não? Mas não é. Na casa das minhas primas, em que havia mais mulheres, me encantava terem um espelho grande, em que pudessem se ver inteiramente. No universo masculino da minha família, isso era sinal de fraqueza…
Ou pecado. Dizem que as freiras não podem ter espelhos.
Usar maquiagem e fazer penteados, sozinha no meu quarto, era distração e resistência.
Hoje tenho um espelho na minha bancada de trabalho. Acompanho minhas rugas, meus pelos, meus cabelos brancos aparecerem. Minha vaidade sempre me salvou da tristeza, da depressão.
Não sei por que isso tudo me veio agora. Não que não soubesse, mas acho que a morte do meu pai liberou a possibilidade de concluir realmente isso. O quanto pequenas coisas nos privam de oportunidades, de autoconhecimento, de liberdade.
Alice não deve se olhar no espelho, pois pode descobrir um mundo bem diferente do que seu pai conhece.

Autor: Claudia Marandino

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