O DILEMA DE UM DESIGNER




Altering-Features_Hyungkoo Lee

Altering features, por Hyungkoo Lee –

(http://hyungkoolee.kr)

Quando penso em moderno, a bem da verdade quero dizer contemporâneo, e o significado deste termo parece definir uma época que parece estar intrinsecamente associada ao consumo, um meio pelo qual a sociedade atual encontrou a sua expressão. Somos o que vestimos, o que usamos, o que consumimos. Cada vez mais nos achamos aptos a alterar qualquer aspecto da nossa aparência. Construímos novos looks, redefinimos nossos corpos, manipulamos o que antes parecia imutável. Infinitas possibilidades ainda hão de ser oferecidas.

Sou do século 20, período que foi a passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo, quando a tradição passou a não ter mais importância. Segurança e planejamento eram ideias comuns àquela época e que hoje parecem totalmente obsoletas. Com a atual velocidade e aceleração, nada mais parece durável e possível de permanecer por toda a vida: instituições, governos, casamentos ou mesmo identidades. Passamos a criar nossas próprias identidades, que não mais foram herdadas, pois a cada instante algo novo é proposto. A cada dia que passa, a cada nova tendência que se apresenta, você tem a possibilidade de se redefinir, de reinventar sua identidade. Cada vez mais nos individualizamos.

Esta individualização de certa forma criou muitos efeitos no cotidiano da vida de indivíduos e grupos que passaram a não mais pensar no coletivo, a despeito do efeito inverso trazido pela globalização que fez com que tudo que acontece no mundo tenha efeitos imediatos em todos nós. Tudo converge e parece não mais ter limites.

A mudança compulsiva, impulsiva e obsessiva parece traduzir a proposta da Moda, um fenômeno social que entende que o novo, a despeito de suas qualidades e características, é sempre superior ao antigo. O antigo é passado e necessariamente pior que o novo. A novidade passou a ser o valor mais importante da sociedade contemporânea e a Moda a sua propagadora oficial. Construindo imagens fantásticas e sedutoras, a Moda convida ao deleite do consumo infinito que transforma Gatas Borralheiras em Cinderelas que correm o risco de se desmontarem assim que ouvirem a badalada da meia noite, isto é, o chamado de mais uma novidade… E assim corre-se incessantemente na busca do dernier cri.

A atividade de design cada vez mais assume relevância na sociedade por ser responsável pela concepção dos inúmeros artefatos usados no dia-a-dia. Na contemporaneidade, o seu papel acaba sendo decisivo na elaboração de produtos que inundam as prateleiras e o imaginário do consumidor que é praticamente induzido ao consumismo. A Moda, presente não somente no vestuário e calçado, mas no comportamento em geral, parece acelerar os processos e a vida dos produtos ao limite, fazendo da obsolescência a consequência imediata do consumo de qualquer coisa.

Acredito na angústia que tudo isto traz, acredito que o ritmo natural das coisas não é este. Acredito que nossas necessidades não são realmente estas.
Como designer de moda, penso que devo criar, inovar, mas com consciência, com verdadeiro amor ao que faço, enquanto atividade e produto.
Mas a sociedade atual se moldou e conformou de tal maneira que penso cá com meus botões: haverá meios diferentes de existir?

Como dar conta de 7 bilhões de seres humanos?

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Tatiana Messer Rybalowski

Designer de moda, arquiteta e professora de Design na PUC-Rio

http://modafashionmode.blogspot.com

Proprietária da marca Slow Fashion OAZÔ

 




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