“NEM TUDO QUE É DE DIREITO, CONVÉM”

por Camila Marandino
 Não tem como, o caso da menina não me sai da cabeça. Junto com o dela, tantos outros foram recontados nesses últimos dias, de amigas e conhecidas, lembrando a gente que não é só um caso de jornal. O perigo está logo ali, só esperando a gente atravessar a calçada.

No meio dessa ressaca emocional que todas nós estamos sofrendo, só me vem à cabeça uma história:

Em 2008, ingressei na faculdade de Direito. Passado o trote, veio a primeira semana de aula e eu estava empolgada.

Chega a aula de Sociologia Jurídica.
Nunca esqueci desse discurso, dessa primeira aula da matéria nessa minha primeira semana no ambiente universitário.

O professor, para provar um ponto, fez um discurso sobre uma mulher indo para uma festa, andando a noite de vestido curto na zona portuária. “A menina tem direito de usar o seu vestidinho curtinho sexy onde ela quiser?”, disse ele em tom meio de deboche. “Tem, mas não convém. Nem tudo que é de direito, convém.”

Na primeira aula da primeira semana do primeiro período de aproximadamente 80 jovens universitários.
Eu nunca consegui esquecer. Nunca.

Eu lembro da forma que ele gesticulava, indicando o comprimento do vestido. Lembro da forma que descreveu os atributos da mulher, insinuando que ela era “gostosa”, daquela forma que professores fazem quando não querem dizer algo politicamente incorreto diretamente. E lembro de como todos ao redor, jovens na casa dos 18 anos, absorveram a informação.

Confesso que essa lembrança me gera apenas angústia e desespero. Como vamos vencer a cultura do estupro se numa primeira aula de uma renomada faculdade de Direito aprendemos que o direito a nós mesmas, a nossos corpos, nossas escolhas, nossa liberdade e direito de ir e vir “não convém”? Se os homens ao nosso lado estão aprendendo isso também?

Sei da realidade. Não andaria sozinha à noite na zona portuária nem de burca. Porque eu sei que não depende da minha roupa, não depende dos meus gestos, da minha postura e, na real, não depende nem do lugar. A culpa não é minha, não é nossa. Vivemos numa prisão, que nos foi imposta, e a responsabilidade sobre esses atos horrendos recai sobre todos aqueles que insistem em nos manter assim.

Mas enquanto for ensinado até em ambiente acadêmico que o que é meu direito que não convém, todas as denúncias de estupro e violência contra a mulher serão tratadas com suspeita e indiferença.

A luta a nossa frente é ingrata e, honestamente, não sei se vamos conseguir vencer. Mas já estamos morrendo por ela, então não resta outra alternativa.

Camila Marandino é formada em direito e trabalha em uma agência literária.

Curta As Arquitetas no Facebook