MEDO DE MÉDICO

 por Claudia Marandino

Ilustração: Claudia Marandino

Ilustração: Claudia Marandino

Confesso. Tenho medo de médicos.
Minha pressão sempre aumenta quando vou ao cardiologista.
Síndrome do Jaleco Branco, ele explica.
E o que falo aqui não tem nada a ver com protestos, políticas de saúde, nada.
É a constatação de um fato. É medo mesmo.
Tenho medo deles, sejam brasileiros, cubanos ou americanos.
Desde criancinha. Desde que meu pai assinava a Revista Seleções, onde sempre havia um caso médico dramático que eu, morbidamente, lia.

Pois então… Estava eu me olhando no espelho, quando reparei que uma mancha no meu rosto, que antes representava, no máximo, o mapa de Cuba em relação ao todo, havia se transformado no mapa da Rússia, com relevo e tudo.
Os Montes Urais estavam lá, separando-a do resto do meu rosto.
Momentos de pânico! E agora? Vou ter que marcar um médico, não para uma revisão, mas sim para a averiguação de fatos concretos!
Ligo para o consultório e, incrível, havia uma desistência!
Ele, sempre cheíssimo, tinha vaga para o dia seguinte, logo pela manhã.
Seria um sinal? Bom ou ruim?

A minha casa é meio afastada de tudo aqui no Rio de Janeiro.
Com o caos do trânsito, a distância e o fato de neste dia ele atender em um consultório dentro de um hospital mega-cheio, saí de casa bem cedo e lá fui eu, pensando na vida e mordendo os lábios.
Pensando em coisas positivas, a vida é bela e…Caramba, detesto ir ao médico!

Aí, resolvi pensar no porquê do meu medo. Por quê?
O caminho, como já disse, era longo. Pensei muitas coisas.
E cheguei a conclusão que eles acabam sendo, na minha percepção, os intermediários entre nós e a Morte.
É isso!
Eles vestidos de branco e ela lá, Senhora Morte, com sua capa preta e foice, espreitando por cima dos ombros deles. Procurando por alguma pequena falha, uma desculpa para tentar levar um papo mais íntimo com a gente.
Meu irmão, que é médico, diz que eles representam a cura.
Que era assim que deveríamos vê-los.
Só que quando olho para eles, vejo entre nós uma divisória em cristal 15mm, com um adesivo  escrito “DOENÇA” em letras grandes, padrão inox escovado, talvez com neon, nos separando.

Mas enfim, após apelar para outros intermediários, que considero superiores aos médicos (com todo o respeito aos Senhores de Jaleco Branco), como Deus, Santos e Nossas Senhoras em diversas formas e aparições ao longo do longo caminho, chego ao hospital.
Vinte minutos de consulta para uma hora e meia de percurso.
Consulta rápida, efetiva, nada a destacar.
Diagnóstico: apenas uma mancha de péssima estética que resolveu se espraiar pelo meu rosto e conquistar novos territórios, apesar do filtro solar 50 diário.

Ufa, alívio. Pura sensação de alforria, euforia e alegria. Ai, que cacofonia!
Embora tenha que usar um creme, comprar mais dois, marcar outra consulta, que agora só consegui para daqui a dois meses, obrigada Senhor e demais participantes dos meus pedidos!!! Poderei então, efetivamente riscar à laser (tão ficção científica!) a Rússia do meu mapa facial.
Nada contra a Rússia, em si. É que se a mancha tivesse continuado lá quieta, caladinha, do tamanho de Cuba, eu nem teria dado atenção a ela!

Agora, vamos brincar de médico e olhar uns consultórios bacanas?
Ai, que medo!
Brincadeirinha…

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