JANTAR ÀS CEGAS




por Ana Matos

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Que tal um jantar às cegas?
Sem caráter romântico. Apenas uma experiência sensorial. Eu diria psico-sensorial.
Olhos abertos ou fechados não farão a menor diferença, mas você felizmente poderá recorrer à audição e ao tato, deixando um pouco de lado o que sabe sobre boas maneiras.Ninguém estará vendo.
Isso poderá ser imensamente relaxante e libertador.

Um garçom cego o conduzirá ao seu lugar e o ajudará a sentar-se. Você terá que tatear ao seu redor para descobrir se a mesa é redonda, quadrada ou retangular.
Se há alguém ao seu lado, onde estão o prato, o garfo, a faca, o copo, a taça.

Você estabelecerá uma estranha intimidade com o garçom, que perguntará seu nome uma única vez e dali em diante saberá onde você está.
Para evitar acidentes, ele tocará suas mãos para entregar cada prato e cada taça de vinho.
Você considerará aquilo normal.

Rapidamente, você entenderá que antes da boca, os dedos são a parte mais importante do corpo quando se come na escuridão.
E descobrirá o prazer de tocar o que come – sem intermediações metálicas.
A liberdade de manter os olhos fechados, de concentrar-se no desfilar de sabores que lhe passam na boca, prato após prato, taça após taça, sem a obrigação social de manter conversas supostamente agradáveis.

Depois de degustados, cada prato e cada vinho virão explicados, e você poderá verificar se suas sensações eram justas.
Ao final do jantar, o garçom se sentará à sua mesa e perguntará sobre a experiência. Você falará, talvez pela primeira vez durante a noite, e sua voz soará diversa, ao contrário da voz do garçom, tão familiar. Tudo parecerá um pouco vago e lento, e de certa forma mais profundo e verdadeiro. Você saberá que não é efeito do vinho, pois a mágica será desfeita com o acender das luzes, que o deixarão cego e atônito, e explicitarão os defeitos do lugar, das pessoas, das relações.
Surgirá, então, uma dúvida: o que traz mais verdade, a luz ou a escuridão?

Inspirado na degustação às escuras, organizada pela Associação Esportiva e Cultural Salentina da União Italiana de Cegos e Hipovidentes (ASCUS) de Lecce, Cupertinum e Slow Food de Nardò e de Lecce.

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Ana Matos detesta que perguntem sua profissão porque não sabe como se definir. Em 2011, largou tudo para estudar gastronomia em uma escola slow food na Itália. Atualmente, dedica-se a conhecer e difundir o Salento, região do sul da Itália onde vive.

http://salentoallseasons.wordpress.com/




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