EU POLIGLOTO. TU POLIGLOTAS?




– por Ana Matos

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Outro dia uma amiga compartilhou com suas amigas poliglotas um artigo que falava de palavras intraduzíveis em diversas línguas.
E entre elas lá estava eu! Uau!
Até aquele momento, nunca havia pensado em mim mesma como poliglota. Isso, apesar de dia após dia, à mesa do café, do almoço e do jantar, minha família e eu saltarmos do português, para o italiano, para o inglês senza stop e, sem sequer nos darmos conta.
Para quem olha de fora é a perfeita confusão. Para nós, é uma questão não só de hábito, mas também de necessidade. Há assuntos que estamos acostumados a tratar em uma língua e não na outra. Há coisas que não podemos ou não sabemos dizer em uma língua, só na outra. E por aí vai.

No texto sobre palavras intraduzíveis compartilhado por minha amiga, o português marcava presença com saudade. O italiano, com boh, interjeição que permite dizer sei lá de modo impressionantemente sucinto. Adorei as duas menções. A primeira, porque depois de um ano e meio sem pisar na terra com palmeiras onde canta o sabiá, estou realmente morrendo de saudades. A segunda porque me sinto mais italiana cada vez que digo boh e fico por alguns segundos com aquela cara aparvalhada de quem não tem a mais pálida idéia.

Com o inglês é diferente. Não sinto que pertença a mim ou a ninguém lá em casa, pois não é a língua materna de nenhum de nós, e não vivemos em um contexto anglófono. Apesar disso, muitas vezes o pequeno imperialista prevalece entre nós. Possivelmente porque meu marido e eu nos conhecemos e hoje trabalhamos na língua de Shakespeare, infelizmente não fazendo poesia. De qualquer modo, verdade seja dita, o inglês è absolutamente invasivo, com tantas expressões atuais, pragmáticas e inexplicáveis com menos de cinco palavras. Sem esforço, me vem a mente: spam, scan, serendipity, trade-off, accountability, patronize

Fato é que falar em varias línguas por um lado amplia nosso universo intraduzível, que inclui não apenas palavras e expressões, como também modos de falar, sentir e viver indissociáveis de cada língua. Por outro, reduz o universo do indizível, pois aumenta as possibilidades de dizer exatamente o que se quer. Aqui em casa estamos aos poucos incorporando uma quarta língua: o dialeto salentino, língua curiosa em que o futuro não existe, mas isso é assunto para um próximo artigo.

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Ana Matos vive e trabalha em Salento, no sul da Itália.
Em seu site,  dedica-se a difundir a região onde vive.

http://salentoallseasons.wordpress.com/




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