CULTURA E ARTESANATO




por Tatiana Messer Rybalowski

Quando se menciona o artesanato, percebo que não há um entendimento único do que se trata. Na língua portuguesa, quase sempre o artesanal toma a direção de algo sem muita sofisticação, algo rústico. Pode ser entendido como algo feito através de meios tradicionais, mas logo a seguir, vêm definições que o apresentam como algo feito através de meios rudimentares, às vezes sem qualquer método.
Em outras culturas, no entanto, esta noção depreciativa não aparece, e quando tento verter a palavra artesanato, tenho algumas dificuldades. A palavra craft, por exemplo, significa fazer (algo) de maneira habilidosa ou uma atividade que envolve a habilidade de executar algo manualmente. Traduzir não é colocar simplesmente no Google Translate, tem que se compreender a cultura e o contexto.
No Brasil, devido ao passado escravagista e de grande diferenciação de classes, o fazer manual sempre teve pouca valorização. O trabalho intelectual sempre prevaleceu e o artesanato, atividade que tradicionalmente vinha das camadas subalternas, desempenhou um papel irrelevante para a construção da cultura nacional. Além disso, os artesãos geralmente dividem seu tempo entre diferentes atividades, eles mesmos entendendo a prática do artesanato como um bico.
Em países onde o artesanato é reconhecido e valorizado, as técnicas são aprendidas em escolas e universidades. O artesão vê neste ofício um meio de expressão que, por vezes, aproxima-o da arte. Busca-se a valorização através de séries limitadas e os preços dos artefatos são altos, aproximando-se de preços de obras de arte. Ofícios como a carpintaria, marcenaria, cantaria, cestaria, tecelagem, bordado e outros requerem treinamento extenso e estágios como aprendiz para obter altos níveis de habilidade.
No Brasil, seguindo a mentalidade da diferenciação/depreciação do manual x intelectual, a educação formal privilegia o que é do campo intelectual. Praticamente não há escolas de formação de ofícios e as tradições de raiz, no interior do país, tendem a desaparecer pelo desinteresse dos mais jovens em aprender e seguir mantendo as tradições. Num país sem memória nem tradição, o que nos restará serão bordados do Mickey e seus companheiros.

Projeto em Araçuai, no Vale do Jequitinhonha (MG), resgata técnicas da tecelagem manual, um ofício de artesãs que está ficando esquecido pelo avanço das técnicas de produção de tecidos e vestuários

Tatiana Messer Rybalowski
Designer de moda, arquiteta e professora de Design na PUC-Riohttp://modafashionmode.blogspot.com
www.facebook.com/OAZÔ




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