AFOGANDO EM COR

– por SONIA GIL

A aquarela é considerada uma técnica muito difícil. Segundo o poeta americano Robert Bly, sempre que há água, existe alguém se afogando.

“É a técnica mais difícil que lidei até hoje”, dizia Fayga Ostrower. “O que é difícil na aquarela é a decisão que se tem que tomar a cada instante, a cor na água se define com uma espantosa rapidez. Aplicada ao papel, não se pode desmanchá-la. Na aquarela só se pode ir em frente”. Segundo ela, a fluidez da aquarela comove muito. “Ela é água”, afirmou, lembrando do adágio do filósofo pré-socrático Heráclito, que dizia que não se pode banhar duas vezes num mesmo rio.

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A magia da aquarela sempre me fascinou. Transborda cores e luzes. Gosto da transparência, da imprevisibilidade, da fluidez, que exige do artista um encadeamento de atitudes de qualidades opostas: agilidade, observação, capacidade de diálogo e paciência.

Aprendi a técnica com Alberto Kaplan, profundo conhecedor da aquarela, curador de importantes mostras sobre o tema. Kaplan organizou em 2001 a exposição “Aquarela Brasileira” no Centro Cultural Light, no Rio de Janeiro.

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As primeiras aquarelas tiveram origem nas cavernas do Paleolítico. Os primeiros artistas utilizavam dedos para executar suas pinturas murais com água e pigmentos.

Durante a Renascença, as aquarelas eram utilizadas para esboços de trabalhos que seriam depois executados à óleo. Foi só no século XVIII que a técnica passou a ser considerada autônoma e independente, e foi difundida em toda a Europa, com a denominação de “Arte Inglesa”. Surgiram então grandes nomes como William Turner, o maior aquarelista de todos os tempos, que influenciou o impressionismo.

A aquarela é considerada por muitos como uma técnica delicada e mais adequada aos pequenos formatos, no entanto, artistas contemporâneos, como o Alemão Alf Löhr e a inglesa Stephanie Tuckwell, utilizam a aquarela sobre papel em grandes formatos com métodos de trabalho que ficam entre o intencional e o acidental.

Alf Lohr

Barbara Nicholls, também inglesa, vem desde 2011 usando exclusivamente a aquarela. Partindo de poças gigantes de água em folhas de papel, Barbara aplica a aquarela sobre água e aguarda o pigmento alcançar o seu limite. Seu interesse é a linha de cor, que cria figuras intrigantes e sedutoras.

Estou retomando o trabalho com a aquarela em busca de novas experiências e descobertas. Durante muitos anos utilizei a técnica de aquarela como minha principal forma de expressão, até que senti necessidade de explorar outras técnicas e suportes e desenvolver um trabalho digital. Mas, a transparência da aquarela e suas manchas de cor, estiveram sempre presentes de alguma maneira em meu trabalho.

O expressionista abstrato De Kooning dizia que aquarela é a primeira e a última coisa que um artista faz. Também ouvi que você não pode ter medo da aquarela porque ela percebe. Para mim, ela é como a vida, uma grande aventura.

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SONIASonia Gil, www.soniagil.com.br Arquiteta e artista plástica. Cidades são sua inspiração. Cria com sua paleta digital, cidades inventadas, desenhadas sobre cidades reais, fontes inesgotáveis de força e beleza. É co-fundadora do coletivo internacional de arte Urban Dialogues

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