A MONUMENTALIDADE E A DELICADEZA




  • Semana passada vi uma linda exposição no Centro Cultural da Justiça Federal, no Centro do Rio de Janeiro, “O Discreto silêncio das cores”, de Tatiana Guinle e Marcelo Carrera. O texto do curador, Eder Chiodetto, chama-se “Monumentos à amnésia” e começa perguntando, “Você fotografa para que? para quem? Onde estão agora todas as fotografias que você já fez? Elas estarão nesse mundo quando você não estiver mais nele?” O texto e a exposição me tocaram. As fotografias antigas, cheias de fungos, os slides… me remeteram à minha infância e aos inúmeros registros perdidos, de festas, passeios e viagens de minha família …onde teriam ido parar os velhos slides?

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    Muito interessante o vídeo onde slides vão sendo sobrepostos em uma mesa de luz, as imagens vão se mesclando até por fim ficarem totalmente escuras, num processo de apagamento das memórias…pelo tempo, pela sobreposição de outras camadas e outras histórias. Como a vida. Lembrei de uma apresentação que vi no Parque Lage, na qual o crítico e professor Paulo Sérgio Duarte falou sobre as duas grandes tendências da arte contemporânea: o espetáculo e a delicadeza. Penso que essas duas tendências contrastantes tem como ponto de contato a captura da emoção, ou você é tocado pela sutileza e delicadeza ou é tragado pela experiência imersiva da escala monumental. Refletindo sobre isso, tive minha atenção despertada por imagens que falavam, ora sobre delicadeza, ora sobre o espetáculo da monumentalidade. Me deparei com uma imagem de uma criança frente à escultura monumental Leviathan de Anish Kapoor instalada em 2011, no Grand Palais de Paris. A imagem me arrebatou. Sozinha, numa total desproporção de escala, a criança é quase que engolida pela monumentalidade da obra. Belíssimo.

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    Assim como Anish Kapoor, o americano Richard Serra e o artista búlgaro Christo usam a monumentalidade como elemento de sua poética.

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    A artista e soldadora canadense Cal Lane utiliza velhos objetos industriais de ferro, como pás, tampas de bueiros , lixeiras e carrinhos de mão, e cria desenhos vazados que nos induzem a fazer uma associação imediata com a leveza da renda, dessa maneira, ela transforma e questiona a natureza desses objetos.

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    A nova exposição de Leonardo Ramadinha, na Galeria Tramas, Shopping Cassino Atlântico, me chamou atenção pelo título: “Sobre a delicadeza das coisas”. Inspirado pela poesia do famoso poeta francês Arthur Rimbaud, “par delicatesse j’ai perdu ma vie (pela delicadeza perdi minha vida)”, o artista fez uma seleção de imagens de grande sutileza. Na mostra, trabalhos com imagens de pequenas borboletas foram colocados em lugares improváveis, fora da linha de visão, no alto, acima da porta ou próximo ao chão… como se ali tivessem pousado. Delicado. Monumentalidades. Delicadezas. Formas de nos arrebatar da pequenez do nosso cotidiano.

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    , Arquiteta e artista plástica. Cidades são sua inspiração. Cria com sua paleta digital, cidades inventadas, desenhadas sobre cidades reais, fontes inesgotáveis de força e beleza. É co-fundadora do coletivo internacional de arte Urban Dialogues




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