A ARTE DE PASSEAR

por Ana Matos

Foto 1 - Dando no pé (2)

 

Quando era mais nova, achava que caminhar era coisa de velho. Meu negócio era correr. Não tinha paciência para essa coisa de um passinho após o outro. Afinal, quando a gente chega?! Caminhar só fazia sentido para mim em circunstâncias que tornassem impossível a corrida. Por exemplo, subindo montanhas.

Foto 2 - Sol nascendo visto do Castelo Do Açu (2)

Nascer do sol visto do Castelo do Açu, Parque Nacional da Serra dos Órgãos

Mas, de qualquer modo, dentro de mim pulsava sempre a pergunta: quando é que a gente chega? O que eu não sabia é que questão era bem outra: Chega aonde, cara pálida??

Os anos passaram e as circunstâncias que tornam a corrida impossível ou pelo menos muito difícil se sucederam e multiplicaram. Gravidez (mas ouviram falar da mulher que correu os 42.195 metros da maratona aos 8 meses de gravidez??), criança pequena, trabalho em tempo integral, dupla jornada, problemas de saúde e por aí vai. Aos poucos, fui me resignando a caminhar… mas, no fundo no fundo, aquilo me fazia sentir velha, velhíssima!

Até que parti para a minha primeira viagem sozinha pela Europa. Caminhei muito com a indefectível mochila nas costas. E, aos trinta e poucos anos (ou seja, com uns 10 anos de atraso), finalmente, aprendi a passear. Descobri que não existe modo melhor para conhecer um lugar novo, ou saborear um lugar supostamente familiar. Quando caminhamos, de preferência só e em silêncio, para nós revelam-se detalhes escondidos do cenário e do nosso próprio pensamento.

Foto 3a - Sacré Coeur Paris (2) Foto 3b - Seine Paris (2) Foto 3c - St Pauls Cathedral Londres (2) Foto 3d - Interior da Holanda (2)

Paris, Londres, Holanda

Hoje, caminhar pela natureza salentina, imergindo vagarosamente no contraste e na dramaticidade de suas paisagens, é uma das minhas atividades favoritas.

Foto 4 - Sant'Andrea Melendugno Italia (2) Foto 5 - Torre del Serpe Otranto Italia (2)

Torre del Serpe e Sant’Andrea

Dificilmente vou só e em silêncio, porque a família é grande e a prole barulhenta, mas, vivendo e aprendendo, já sei apreciar também a companhia e o rumor alegre das crianças.

Foto 6 - Luca e Ana nelle Orte Otranto Italia (2)

Luca e Ana nelle Orte

A questão é entender o tipo de passeio que se quer (e se pode) fazer. Há inclusive quem tenha filosofado sobre o assunto. Parece que o pioneiro foi alemão Karl Schelle, que, em 1802, escreveu A Arte de Passear. Segundo ele, apenas a consideração estética da natureza permite a livre atuação das forças da alma. Hmmm… pode ser.

Ás vezes, porém, as forças da minha alma são tais que só mesmo correndo, coisa que as tais circunstâncias não me estão permitindo fazer. Mas tenho planos de recomeçar e até mesmo uma meta: a maratona do Lago di Garda, em outubro de 2014. E desta vez pretendo aproveitar o caminho, sem cair na armadilha de ficar me perguntando: mas, afinal, quando a gente chega? Até porque outra coisa que aprendi é que não se chega a lugar nenhum, cara pálida. O importante é o movimento, o passo a passo, no ritmo em que ditar a alma.

 

 

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Ana Matos detesta que perguntem sua profissão porque não sabe como se definir. Em 2011, largou tudo para estudar gastronomia em uma escola slow food na Itália. Atualmente, dedica-se a conhecer e difundir o Salento, região do sul da Itália onde vive.

http://salentoallseasons.wordpress.com/

 

 

 

FOTO – JOANA FERREIRA

 

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