A ANGÚSTIA DO SER CONTEMPORÂNEO

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Vivemos um tempo interessante em que a construção de imagens e identidades parece ser o exercício nosso de cada dia. A cada dia que acordamos podemos ter diferentes estilos de acordo com a nossa vontade: um dia acordamos indie, outro dia perua, outro grunge. Até o suposto sem estilo passou a ser um estilo. A publicidade faz bastante uso deste recurso, fazendo-nos acreditar que esta “brincadeira” que parece nos remeter aos tempos de adolescência é um ato criativo.
Esta brincadeira, ou este universo de possibilidades, no entanto, pode trazer certas angústias, já que a existência de tantas identidades, a bem da verdade, parece simplesmente revelar a falta delas.
Quando vivíamos numa sociedade de Tradição, recebíamos heranças que tinham valor, sabíamos para onde deveríamos ir, como nos portar e o caminho a percorrer, na maioria das vezes, era pré-estabelecido. Não nos preocupávamos em construir identidades: elas eram recebidas.
Com a passagem para a sociedade contemporânea, a Tradição deixou de ter sua importância e o novo passou a ser bom apenas por ser novo. O individual suplantou o coletivo e a contemporaneidade fabricou um homem voltado para si mesmo. Um homem que passou a buscar identidades, tentando dar forma ao disforme.
Apoiava esta construção na equação ofertada pela Moda: a vontade de se distinguir e ao mesmo tempo pertencer a um grupo. Ou: procurava ser ele mesmo ao mesmo tempo desejando ser outro.
Em última instância, a obsessão do sujeito pela mudança de identidade, de ser ele mesmo e ao mesmo tempo querer se tornar outro parece uma situação difícil de lidar. A sensação que fica é a de “não serem mais nada e de lugar nenhum, [sendo] a vertigem diante de seu próprio vazio o preço a pagar para, de certa maneira, exercer a propriedade de si”*.
Numa sociedade onde tudo se consome e a ilusão da individualidade e liberdade é trazida pelo consumo, a ação de escolher ou descartar passa a ser um ato libertário. Neste desejo de selecionar e adquirir identidades, mesmo que voláteis e/ou instáveis, a alternativa é a ida às compras no supermercado de identidades, que se torna o verdadeiro caminho para a realização das fantasias de identidade.

Ou não, como diria Caetano.

 

*Marcel Gauchet: “Essai de psychologie contemporaire” em La démocratie contre elle-même

(legenda na imagem: Being John Malkovich)

foto blog_5 tatianaTatiana Messer Rybalowski

Designer de moda, arquiteta e professora de Design na PUC-Rio

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