A REDENÇÃO DE SALIERI




Amadeus

Quando vi o filme Amadeus sobre a vida do Mozart, há anos atrás, fiquei muito impactada  com um monólogo de Salieri em sua fúria contra Deus.
É um trecho conhecido, em que Salieri se revolta com o fato de Deus ter-lhe dado a capacidade de reconhecer a beleza, a diferença da música de Mozart, e não ser capaz de reproduzi-la.
Não ter aquela centelha divina que exalava com tanta desfaçatez  e exuberância do talento de Mozart.
Chorei copiosamente nesta parte do filme.
Era bem jovenzinha, estava cursando a faculdade de arquitetura e me identifiquei completamente com o Salieri.
Achava que poderia saber ver, mas que nunca saberia fazer.
Quando uma pessoa tem um talento musical, dizemos:
“ela tem um bom ouvido para  musica”.
Não se sabe bem explicar, é intuitivo. Ela escuta e entende onde está o que, o porquê de uma frase musical ficar linda e de  outra não.
Nos dias de hoje ela pode expandir esse dom de outras maneiras.
Ela não precisa ser necessariamente uma virtuose da música, nem mesmo ter essa capacidade de compor, por exemplo.
Mas pode se tornar um grande produtor musical, um jornalista dedicado à música, um excelente técnico de som.
E quase otimista que sou, penso: é a redenção de Salieri!
Saber o que é bom também importa! Também tem seu valor!
Hoje, enfim, encontrei um lugar para o meu Salieri interior.
Não sou boa de ouvido, sou boa de “olho”!
E o legal é  pensar que, felizmente, os meios de comunicação modernos ainda me permitiram usar essa habilidade e me sentir feliz por isso. Que não passasse por essa vida em frustração.
Há séculos atrás eu não seria nem uma arquiteta.
Há anos atrás, seria difícil eu, tendo estudado arquitetura, me tornar uma jornalista especializada em arte e arquitetura, ou mesmo lifestyle.
Eu seria um “Salieri” visual! Condenada!
Mas hoje as coisas se encaixaram cosmicamente.
Pelo puro gosto de olhar, que pôde se expressar através de novas formas de comunicação, fizemos um by-pass aos meios de comunicação tradicionais e aqui estamos.
E eu feliz da vida, a editora de um blog e um facebook, seguido por muitas pessoas que votam , em tempo real, se gostaram ou não das escolhas.
Têm dias que é tenso…
Como os polegares dos romanos nas lutas, o botão curtir diz:
“Você sobreviverá nessa arena! Ou não. Nós decidimos.”
Sinto-me um mini-tiny-micro Roberto Marinho participando do seu próprio Big Brother.
Não é uma loucura? (Ai, Narcisa…)
Fico encantada de poder criar pontes entre o meu passado, o que vejo hoje, e apontar para o futuro.
O blog é uma revista diária, que pode ser lida diretamente pelas pessoas, sem passar por um dono, empresário, editor do mainstream.
Já o Facebook é uma espécie de estação de  rádio, que espalha a notícia em tempo real e dá a trilha visual da vida:

“vamos tomar um café + foto do café? “

E ainda recebe os comentários e pedidos diretamente.
Não é fantástico!
Reclama-se muito de não se ler mais, não se sentar para conversar, e isso e aquilo.
Concordo em parte. Eu, por exemplo, passo o dia lendo, em frente ao meu computador…
Sou mesmo é fascinada  com o fato de que as coisas mudam e com isso as possibilidades  se multiplicam.
Ao invés de só lermos a notícia no jornal e, se tivermos paciência e desinibição, mandarmos uma carta,que talvez seja publicada, podemos fazer um micro debate sobre a saída do Papa, a eleição de Renan Calheiros ou a demolição do Museu do Índio.
Imaginemos se, com a vida estressante e corrida que já levamos, passando horas no trânsito ou no trabalho, não tivéssemos essa coisa fantástica que é a internet no telefone. Em que se vê as  notícias, fala-se com amigos e pode-se até ler um livro/e-book no metrô.
Adoro tecnologia, ficção científica e cheguei a um dos futuros das minhas prováveis linhas do tempo.
Eu tenho um comunicador!! Só falta o “preparar para transportar…” (do Star Trek, ok?)
Mas quero é mais.
Espero não perder esse bonde muito rápido. Sei que em algum momento ele vai ficar muito veloz, minhas perninhas pouco ágeis e meu olhar deficiente e defasado.
Só que enquanto der, eu vou.
Sei que não sou Mozart, longe disso! E nem mesmo Salieri!
Mas o monólogo dele no filme não me faz mais chorar copiosamente.
Salieris do mundo, nós também podemos!

PS: Antes que me perguntem, não entendo nada da musica de Mozart ou Salieri!
Só vi o filme e mesmo assim há muito tempo atrás. Se der para entender o sentindo do que quis falar já está ok, certo?
Salieri andou fazendo terapia e aprendendo a aceitar suas limitações…

Bjsbjs, Claudia Marandino




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